Depressão marcou os últimos anos de Fernando Mamede
O dia 27 de janeiro de 2026 ficará marcado como um dos mais dolorosos para o desporto português. Fernando Mamede, uma das maiores figuras do atletismo nacional, morreu aos 74 anos, deixando um legado desportivo ímpar e um testemunho marcante sobre saúde mental.

Fundista do Sporting Clube de Portugal, clube que representou durante toda a carreira, Mamede foi recordista mundial dos 10.000 metros durante cinco anos e um atleta que fez sonhar uma geração. Apesar do enorme talento e reconhecimento público, a tão desejada medalha olímpica escapou-lhe, com destaque para a desistência nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, episódio que o próprio descreveu como “o dia mais triste” da sua vida.
Por detrás do sucesso, Fernando Mamede lutou durante décadas com problemas de saúde mental, numa época em que o tema era amplamente ignorado no desporto de alta competição. Em entrevista ao Público, em 2019, recordou a ausência total de apoio psicológico durante o auge da sua carreira, sublinhando que falar de psicologia no desporto era visto como sinal de fraqueza.
Em 2012, o antigo atleta entrou numa depressão profunda, da qual recuperou alguns anos depois, confessando não conseguir identificar uma causa concreta para a doença. No entanto, em 2023, sofreu uma recaída, situação que motivou preocupação por parte da Federação Portuguesa de Atletismo.
Fernando Mamede viveu sempre acompanhado pela mulher, Alzira, “a companheira de sempre”, que o apoiou ao longo de décadas. O seu percurso ficou também marcado pelo isolamento nos últimos anos, descrito por vários testemunhos públicos.
Mamede parte como lenda do atletismo português, mas também como símbolo de uma geração de atletas que competiu sem rede de apoio psicológico, deixando um alerta claro para a importância de cuidar da saúde mental, dentro e fora do desporto.



